Estádio Olímpico da USP

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O Estádio Olímpico da Universidade de São Paulo é um estádio desportivo localizado no Centro de Práticas Esportivas da Universidade de São Paulo (CEPEUSP), dentro da Cidade Universitária Armando Salles de Oliveira, na Zona Oeste da cidade de São Paulo, bairro do Butantã.

Ficha técnica
Arquiteto: Icaro de Castro Mello
Arquiteto co-autor: Alfredo Paesani
Engenheiro estrutural: Arthur Luiz Pitta
Ano do projeto: 1961
Área do terreno: 29.400 m2

O arquiteto

Icaro de Castro Mello

Na história da arquitetura brasileira, raros são os registros de arquitetos com produção centrada em uma temática específica. Icaro de Castro Mello foi um deles. Nascido em 1913 em São Vicente, SP, muito cedo comprometeu-se com a concepção de prédios esportivos e, até sua morte em 1986, nunca interrompeu as incursões neste território, sendo seguramente o arquiteto brasileiro que criou o maior número de edifícios desta natureza.

A familiaridade de Icaro de Castro Mello com estádios e ginásios não se estabeleceu ao longo de sua carreira, mas pelo viés da prática esportiva. Icaro foi um atleta nacionalmente consagrado, campeão paulista, brasileiro e sul-americano de salto em altura, salto com vara e decatlo. Dedicou-se também à natação, ao tênis e ao vôlei e representou o Brasil nas Olimpíadas de Berlim, em 1936.

Castro Mello ingressou, em 1931, na Escola de Engenharia Mackenzie, que trocou dois anos depois pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, onde formou-se em 1935 como engenheiro-arquiteto. Ginásios e estádios predominam na produção do arquiteto, como edificações isoladas ou integrando conjuntos desportivos. Entre as obras do arquiteto, destacam-se o Ginásio de Sorocaba, 1950, o Ginásio do Ibirapuera, 1952/1957, a Piscina da Água Branca, 1948, o Sesc Itaquera, 1984/1992 e o Estádio olímpico da Universidade de São Paulo, 1961.

Icaro também participou ativamente da regulamentação do exercício profissional da categoria, da fundação do Departamento de São Paulo do Instituto de Arquitetos do Brasil - IAB/SP, da presidência do departamento entre 1956 e 1961, e do instituto, de 1960 a 1966. Foi professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo entre 1950 e 1956. Em 1986, recebeu o Prêmio Vilanova Artigas.


Conceito arquitetônico

Maquete do projeto original de 1961

O projeto para o Estádio Olímpico da USP, construído em 1961, estava inserido em um plano maior para a construção de um centro esportivo dentro da Cidade Universitária Armando Salles de Oliveira. Assim sua implantação, além de considerar fatores importantes para a construção de um campo, como a direção das traves do gol em relação à insolação, considerava também sua inserção dentro de um programa que abrangia: quadras de tênis (incluindo uma com arquibancadas), mais dois campos de futebol, quadras poliesportivas, uma piscina coberta, um ginásio coberto, além de alojamentos, que atualmente funcionam como moradia estudantil - CRUSP. É possível perceber, na implantação, a escolha de um grande corredor de circulação que ligaria o estádio olímpico, a quadra de tênis e ainda a piscina, com ligação para os alojamentos. Ainda foi prevista uma grande esplanada de acesso ao estádio. Quanto à solução arquitetônica do estádio em si, o arquiteto Ícaro de Castro Mello em colaboração com Alfredo Paesani, buscou utilizar o formato de um anfiteatro para as arquibancadas, devido a sua eficiência do ponto de vista da insolação e visibilidade. Além disso, devemos considerar o contexto histórico no qual o projeto foi concebido; em meados dos anos 60, a arquitetura paulista passava por um período conhecido como brutalismo, e isso explicaria a escolha do concreto aparente usado em todo o conjunto de arquibancadas, além da clara preocupação com a forma diferenciada dos pilares. Para a prática de esportes o projeto contava com uma arquibancada para 30.000 pessoas, dividida em dois níveis, um campo de futebol e uma pista de atletismo com 400 m de extensão (projetada com três raios de curvatura), que exigia um afastamento maior das arquibancadas em relação ao campo. Ainda estavam previstos, sob as arquibancadas, vestiários e salas de apoio e, no nível mais alto do conjunto, visualizando todo o campo, locais de imprensa e tribuna de honra.

As arquibancadas são projetadas para garantir a melhor visibilidade possível para um grupo de pessoas durante um evento, e a necessidade de aumentar a capacidade do estádio e de seguir a curva de visibilidade levou à adoção de uma estrutura com dois andares. As normas seguidas para atender às necessidades de visibilidade e segurança, na época, eram internacionais.

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Situação atual da obra quanto a sua integridade arquitetônica

Implantação atual

É importante ressaltar que o projeto do complexo esportivo, no qual o estádio se insere, recebeu diversas alterações durante seu processo de execução, e o que se vê hoje, são apenas fragmentos do plano original, uma vez que muitos dos elementos previstos não foram construídos. Isso pode ser notado ao compararmos a implantação atual do estádio no CEPEUSP com o projeto original. As mudanças de gestão dos reitores da universidade causaram tal descontinuidade e, até hoje, o estádio está incompleto, com obras de terraplanagem, acessibilidade, apoio e iluminação por serem executadas. A divisão do campo original em dois prejudicou seu uso, devido a problemas de insolação nas traves, além de inviabilizar o uso da pista de atletismo. Ainda foi colocada uma grade cercando os dois campos, acentuando o descaso com as arquibancadas e destruindo qualquer relação dela com eventos esportivos; além disso, os acessos diretos existentes entre a arquibancada inferior e o pavimento dos vestiários foram fechados, acentuando ainda mais esse distanciamento. Até mesmo as salas de apoio sob as arquibancadas foram destinadas a outros usos, não previstos no projeto original, como aulas de dança e outras atividades recreativas. Além disso, os espaços previstos no alto da arquibancada para a imprensa e camarotes não foram construídos.

Como o conceito arquitetônico evoluiu – como a obra seria concebida hoje?

Se concebido hoje o projeto deveria atender às normas vigentes, como, por exemplo, a NBR 9050:2004 (Acessibilidade a Edificação, Mobiliário, Espaços e Equipamentos Urbanos) e a IT12 (Instrução Técnica N° 12 - Requisitos de Segurança contra Incêndio) que define o tempo de escoamento dos usuários e algumas recomendações a respeito de iluminação. Desse modo uma das medidas adotadas para os estádios é a utilização do assento individual rebatível, que quando comparado ao assento convencional proporciona um menor custo da construção devido à economia de espaço.

Conceito estrutural

Vista dos pórticos, 1961

O conceito estrutural das arquibancadas é um sistema complexo. As estruturas de arquibancadas de estádios de futebol normalmente são carregadas por multidões que desenvolvem diversas atividades durante os eventos, como andar e pular. Esses movimentos geram cargas dinâmicas que induzem vibrações relevantes nessas estruturas, podendo estar distribuídas ou concentradas em um ou mais setores específicos da estrutura. A ocorrência dessas oscilações causa efeitos indesejáveis aos expectadores, reduzindo o conforto humano. Além disso, em alguns casos, vibrações podem até reduzir a capacidade portante da construção, em função de danos estruturais como fissuração exagerada, comprometendo a integridade e durabilidade do sistema.

A estrutura é constituída por pórticos em balanço, que sustentam as vigas (degraus) da arquibancada. Esses pórticos variam de seção conforme sua altura: na parte inferior os pilares apresentam maior seção devido ao balanço; na parte superior a seção é menor, e a viga que sustenta os degraus diminui de acordo com a altura da arquibancada, constituindo uma viga denteada, também conhecida como viga jacaré. No dimensionamento dessa viga o carregamento a que ela deve estar submetida considera seu peso próprio, a contribuição do peso do degrau e o carregamento de utilização a que ela estará solicitada. Como essas peças geralmente possuem pequenas espessuras, as verificações do cisalhamento, fissuração e deformação têm grande importância. Para compensar o grande balanço é necessária uma fundação de grandes dimensões, como é possível observar no estádio. Cabe ressaltar que nesse caso parte da fundação está aparente, pois não houve o aterro que era previsto no projeto original.

Em relação aos degraus, cada um corresponde a uma viga, e deve vencer o vão compreendido entre dois pórticos, sendo ela biapoiada. Dessa forma, a distância entre os pórticos deve ser o suficiente para que a viga do degrau da arquibancada vença o vão e fique com uma altura adequada para o conforto do usuário. Sabe-se que o espaçamento máximo para os pórticos é por volta de 9 m, tendo o degrau, portanto, 90 cm (considerando que a altura da viga biapoiada corresponde a 1/10 do vão). Neste caso, o degrau fica muito alto e a viga teria que crescer para baixo (“viga T”), encarecendo a obra. Logo, é ideal para um projeto de arquibancada, conciliar a viabilidade econômica e o conforto do usuário.

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Método construtivo e materiais utilizados

A estrutura é de concreto armado moldado in loco, sendo necessárias, portanto, a realização de cimbramento (estrutura de suporte provisória composta por um conjunto de elementos que apoiam as formas horizontais – vigas e lajes –, suportando as cargas atuantes – peso próprio do concreto, movimentação de operários e equipamentos, etc. – e transmitindo-as ao piso ou ao pavimento inferior) e de fôrmas montadas manualmente. Com esse sistema, os operários trabalhavam no alto da arquibancada por meio de andaimes. É importante ressaltar que, como a altura dos degraus vai diminuindo à medida que a arquibancada se afasta do campo, as fôrmas também variam. Por todos esses fatores, trata-se de um sistema com maior propensão de apresentar imperfeições.Os demais materiais utilizados são basicamente os componentes metálicos do guarda-corpo e da caixilharia das salas sob a arquibancada, que são constituídas de blocos de alvenaria.

Como o conceito estrutural e os processos construtivos evoluíram – como a obra seria concebida hoje?

Embora seja atraente esteticamente, o conceito estrutural empregado no Estádio já está ultrapassado. Isso se deve principalmente ao comportamento das torcidas que se verifica atualmente. Se o estádio fosse construído hoje também seria adotado o concreto, porém, não mais moldado in loco e sim o concreto pré-moldado. Esse método permite maior praticidade, rapidez e limpeza na execução, além de menor desperdício de fôrmas. Além disso, é necessário desenvolver uma estrutura mais estável, que resista melhor às oscilações e proporcione maior conforto aos expectadores. Dessa forma, a estrutura seria concebida com o sistema comum de pilar-viga, e não com o sistema em balanço; também, seriam adotados materiais de maior qualidade e resistência do que os disponíveis naquela época – armadura de aço mais resistente e concreto de 60 MPa, possivelmente; visando também uma durabilidade maior da estrutura.


Situação geral da obra quanto a sua integridade estrutural

Quanto à integridade estrutural da obra, sabe-se que foi mantida, já que não houve alterações do conceito estrutural inicial. Entretanto, é importante observar que em virtude da obra não ter sido finalizada, o concreto não recebeu o tratamento adequado. Assim, o material atualmente encontra-se em péssimo estado de conservação; situação agravada pelo fato de estar sujeito às intempéries, uma vez que a estrutura não possui cobertura.


Sustentabilidade, manutenção e conservação

Deterioração do concreto e da tubulação de drenagem
Crescimento de vegetação em fissura

O estádio não teve e ainda não tem uma boa manutenção e por isso apresenta muitos problemas em toda sua estrutura. Há também a questão da execução, o projeto de Ícaro Castro Mello não foi inteiramente construído e por isso alguns elementos estão incompletos e inadequados. Além disso, não houve até hoje uma grande preocupação com sua conservação e as adaptações feitas, como os tubos de drenagem, descaracterizam o projeto original.

Quanto às patologias podemos citar as principais: infiltração, presente principalmente em locais próximos as instalações de águas pluviais; carbonatação do concreto; fissuras e rachaduras na estrutura, presente em toda a construção, mas concentrada na área da arquibancada; armadura aparente na parte inferior da arquibancada e fundações aparentes. As infiltrações se devem principalmente ao fato de o projeto de drenagem não ter sido concluído, mas também porque não foi feita uma impermeabilização no concreto aparente, que no decorrer do tempo acaba sofrendo as consequências das chuvas.

As armaduras provavelmente se tornaram aparentes devido ao desgaste do tempo e também à infiltração, e com a falta de manutenção o processo acabou sendo acelerado. Essas condições também levaram ao surgimento de fissuras e rachaduras, e maior desgaste nas juntas de dilatação.

Se o estádio fosse mais bem conservado, provavelmente grande parte dos problemas não estariam tão agravados e o lugar poderia ser utilizado com maior frequência. Para que o estádio possa ser utilizado nos dias de hoje, seria necessário um estudo para a verificação do estado em que se encontra a estrutura.

Por ser um projeto bastante antigo ele não apresenta nenhuma adequação aos conceitos de sustentabilidade, o que seria bastante diferente se fosse construído atualmente. A água captada da drenagem da arquibancada e do campo poderia ser utilizada para a irrigação do próprio campo ou para o uso nos vasos sanitários dos vestiários localizados abaixo da arquibancada.

Entretanto, o campo e a área sob a arquibancada se encontram em boas condições e são utilizados com frequência. As salas sob a arquibancada são utilizadas para aulas e atividades recreativas, tendo, portanto, uma manutenção periódica, da mesma que os vestiários. Porém, como a cobertura da área de circulação desse espaço é a própria arquibancada, verificamos patologias similares. Há um estudo para verificar se existe a possibilidade de recuperação ou se o estádio será demolido. Em entrevista realizada em 2010, Carlos Bezerra de Albuquerque, então diretor do CEPEUSP, acredita que “o ideal seria derrubar as arquibancadas e deixar apenas o anel inferior para abrigar os espectadores, até porque sua capacidade é muito acima da necessária para receber apenas eventos internos.”; o próprio escritório de arquitetura estuda as possibilidades de recuperação, no contexto de uma reforma em todo o setor esportivo.

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Colaboradores

O engenheiro estrutural

O engenheiro Arthur Luiz Pitta, iniciou a parceria com o arquiteto Icaro de Castro Mello em 1951, atuando no projeto do Estádio do Guarany Futebol Clube em Campinas/SP. Nessa época, o engenheiro trabalhava na Sociedade Construtora Brasileira Ltda. Foram 35 anos de parceria e sessenta e um projetos estruturais realizados: 11 projetos de Estádios de Futebol – Atletismo, 22 Ginásios Poliesportivos, 14 Centros Aquáticos e 8 projetos diversos. Em depoimento de 2005, Pitta descreve a experiência de trabalhar com Castro Mello:

“O Icaro sempre foi um colaborador nos projetos estruturais, dando grande liberdade ao calculista e com este colaborando com ótimas sugestões para as soluções estruturais. Aproveito a oportunidade para externar a minha admiração e gratidão ao Icaro, pelo auxílio desinteressado que sempre manifestou, jamais impondo as suas soluções sem uma discussão e reflexão sobre os assuntos em pauta, fossem eles de qualquer natureza ou vulto. Devo o início e a solidificação da minha carreira profissional a este ARQUITETO pois foi ele que a consolidou”.

Atualmente, seu filho Arthur Luiz Pitta Júnior, coordena o Escritório Técnico Arthur Luiz Pitta (ETALP) e continua executando projetos em parceria com o escritório Castro Mello Arquitetura.


O co-autor do projeto

Arquiteto formado pela Universidade Presbiteriana Mackenzie em 1954, Alfredo Paesani (1930-2010) apreciava o trabalho em equipe e nunca seguiu carreira solo, abrindo o próprio escritório. Ao longo da vida, colaborou com muitos nomes, como Paulo Mendes da Rocha, Icaro de Castro Mello, entre outros. Em depoimento de 1896, ele conta:

“Fui sócio de Icaro e por isso tive uma convivência profissional muito direta com ele. Era um profissional muito direta com ele. Era um profissional muito competente e estudioso. Preocupava-se muito com os problemas relacionados com as edificações para o esporte. Além disso, teve uma grande participação na direção de entidades de classe. Ele foi um colaborador para a organização sindical. Na direção do IAB, com algumas divergências, tivemos um trabalho muito concreto.”


Referências

1. Estádio Olímpico, USP - Universidade de São Paulo. Castro Mello Arquitetos. Página visitada em 28/05/2012.

2. "Base firme". Revista aU - Arquitetura e Urbanismo. Página visitada em 31/05/2012.

3. "Nas arenas da profissão". Revista aU - Arquitetura e Urbanismo. Página visitada em 31/05/2012.

4. "Mello, Icaro de Castro (1913 - 1986)". Enciclopédia Itaú Cultural de Artes Visuais. Página visitada em 31/05/2012.

5. "Estádio do CEPE tem estrutura comprometida". Jornal do Campus, 05/09/2010.


Ligações externas

1. Castro Mello Arquitetos

2. ETALP - Escritório Técnico Athur Luiz Pitta